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Apesar de diferenças intrínsecas, alto potencial de crescimento faz de Brasil, Rússia, Índia e China as novas apostas da economia mundial

Fonte: Portal FCDL Notícias
Data: 12/04/2010

O forte crescimento econômico de países como Brasil, Rússia, Índia e China surpreendeu o mundo nos últimos dez anos. O banco de investimento Goldman Sachs considera que os quatro estarão entre as cinco maiores economias nos próximos 20 anos. O que chamou a atenção dos economistas é que além do vasto território (juntos eles representam 38 milhões de quilômetros quadrados e uma população de 2,8 bilhões de habitantes), esses países são responsáveis por um Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 8 trilhões. Para estudá-los, o economista Jim O’Neill cunhou, a partir das iniciais, a sigla Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) e passou a analisar os desafios para que o grupo conquiste espaço no cenário mundial. É preciso, segundo O’Neill, que eles aprimorem os sistemas financeiro e educacional e melhorem a infraestrutura – investimentos que já começaram a ser feitos.

Dados do relatório bianual do Conselho de Ciência e Engenharia dos Estados Unidos, que avalia a aplicação de recursos em pesquisa, mostram que a China vem aumentando em 20% ao ano os recursos nesse setor e o Brasil a uma média de 10% – o que faz da China, Índia e Brasil estarem entre os 15 países que mais investiram em pesquisa e desenvolvimento nos últimos anos. Uma área que eles já são líderes é a de tecnologia da informação e comunicação (TICs). Em 2009, os países estiveram entre os que mais investiram no setor. Pesquisa realizada pelo instituto International Data Corporation (IDC) mostra que a China gastou o equivalente a US$ 69 bilhões em TICs, o Brasil US$ 32 bilhões, a Índia US$ 22 bilhões e a Rússia US$ 18 bilhões. Um investimento que produz resultados diretos no mercado. Pelas estimativas do IDC, enquanto o setor de TICs deve crescer cerca de 6% em nível mundial em 2010, os integrantes do Bric devem registrar aumento nas vendas de produtos e serviços de TICs entre 8% e 13%.

Para Antônio Gil, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom), o setor de TICs é um dos elementos fundamentais para o desenvolvimento. Ele considera que a demanda por tecnologia para permitir a globalização e a mobilidade tende a aumentar e os países precisam estar preparados para oferecer soluções em produtos e serviços. “As TICs têm uma importância em si como negócio e, ao mesmo tempo, elas influenciam todas as outras atividades econômicas e educacionais de um país. Daqui para frente os investimentos em TICs não são só fundamentais como absolutamente indispensáveis”, explica.

Investimento sistemático
O maior investimento em TICs está sendo feito pelo governo chinês, que nos últimos 30 anos ampliou sua atuação no setor de pesquisas científicas. Um movimento que faz parte de uma política de governo para que o país se especialize também na produção de bens de alto valor agregado. Para Gil, o caso da China é um exemplo de investimento de forma sistemática e organizada. O Ministério da Ciência e Tecnologia já ajudou a implementar 600 incubadoras no país, o que contribuiu para a geração de mais de 1 milhão de empresas. A cidade de Xangai é a grande referência em TICs, onde estão instaladas 35 incubadoras. Wang Zhen, assistente do diretor do Centro de Tecnologia e Inovação de Xangai que participou do 3º InfoDev Fórum Global de Empreendedorismo & Inovação no Brasil, explica que o governo chinês investe também em incubadoras fora do país para incentivar a internacionalização das empresas. “Nós temos no Reino Unido a primeira incubadora chinesa internacional da Associação Asiática de Incubadora de Negócios.”

No caso da Índia, os maiores investimentos são em serviços de tecnologia da informação e de terceirização de processos de negócios (TI-BPO). Hoje eles são responsáveis por mais de 50% do mercado e exportam cerca de US$ 50 bilhões anuais em TICs. “Isso é o equivalente a toda a exportação de commodities agrícolas do Brasil”, afirma Gil. Ele explica que há toda uma movimentação para que o país se transforme no maior centro global de TICs. “Uma vez escutei o primeiro-ministro da Índia dizer que IT (tecnologia da informação, em inglês) quer dizer India’s Tomorrow, o amanhã da Índia”, conta.

Mas mesmo com os investimentos do governo no setor, Harkesh Kumar Mittal, Tecnologia da Índia, considera que ainda é pouco. “A economia indiana cresce enquanto o governo dorme”, afirma. Ele explica que o país aproveita pouco os recursos vindos dos TICs para melhorar a distribuição de renda na Índia. “Dos dez homens mais ricos do mundo, quatro são indianos, enquanto a maior parte da população vive em situação de pobreza.”

Dentre os quatro países membros do Bric, a Rússia é o que menos investe em TICs. O país que já foi referência em inovação durante a Guerra Fria, hoje tem uma economia dependente da venda de gás e de petróleo. Além disso, o país amarga uma retração de 8,7% em 2009, o pior PIB desde 1994. Mas mesmo durante a crise, as empresas de tecnologia da informação russas continuaram lucrativas, ao contrário de muitas companhias da área de metalurgia e matérias-primas.

De acordo com o presidente da Brasscom, o Brasil se destaca no setor de TICs por oferecer produtos e serviços financeiros e de e-government, tem o segundo maior parque de mainframes (computadores de grande porte) e, além disso, tem um grande mercado interno. Ele explica que em 2008 o mercado de TICs movimentou só no Brasil cerca de US$ 140 bilhões. Isso representa 7% do PIB e o oitavo maior mercado de TICs do mundo. “O Brasil é grande, tem infraestrutura, competência, mas exporta pouco.” Ele explica que a expectativa é que, em 2009, as exportações brasileiras em TICs fechem em US$ 3 bilhões. “É um crescimento significativo, mas é pequeno se comparado às exportações globais, já que o número total de exportações de TICs foi de US$ 84 bilhões. Em aspectos globais, o Brasil ainda tem um papel pequeno. Só para se ter uma ideia, a Índia tem planos de exportar nos próximos anos o equivalente a US$ 100 bilhões.”

Gil explica que se o Brasil não for agressivo nas exportações de TICs, abre espaço para que outros países estabeleçam empresas aqui e concorram diretamente com as companhias brasileiras. Ele considera que o Brasil precisa proteger o seu mercado e, para isso, o governo deve fazer investimentos no setor e ser mais agressivo com as exportações. “Precisamos ter custos competitivos. Hoje, só para se ter uma ideia, o minuto de celular na Índia custa 6 centavos de dólar e no Brasil a mesma ligação custa 40 centavos de dólar. A nossa taxa de impostos sob mão de obra é a mais alta do mundo – precisamos reduzir a carga fiscal.”

Desafios
Para Maurício Schneck, assessor de relações internacionais da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec), os países membros do Bric que quiserem investir em TICs devem estar atentos às demandas do mercado. “Quando grandes empresas desejam se instalar em algum país, os quatros pontos que costumam ser levados em consideração são infraestrutura, incentivos fiscais e tributários e mão de obra qualificada.” Ele considera que, no caso do Brasil, ainda falta mão de obra. “No momento nós temos 20 players que estão prospectando o mercado brasileiro para instalar fábricas aqui com a perspectiva de abrir de 300 a 1 mil posições no setor de tecnologia da informação, mas quando há uma demanda muito grande o que acontece é que essas empresas costumam tirar a mão de obra de outras pequenas e médias empresas.”

Segundo Eduardo Costa, diretor de inovação da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o Brasil vive um momento positivo e de forte incentivo para a área de TICs. “Todos os instrumentos necessários para apoio à empresa existem nesse momento, o que nós precisamos é aumentar o alcance desses projetos, chegar a um número maior de empresas atendidas e disponibilizar mais dinheiro”, afirma Costa. Ele explica que houve um aumento nos recursos públicos para inovação e que a Finep ampliou o financiamento para empresas. Estão sendo investidos US$ 1 bilhão: US$ 600 milhões para crédito, US$ 300 milhões para subvenção e US$ 100 milhões para capital de risco. São financiamentos como o Primeira Empresa Inovadora (Prime), que busca auxiliar cerca de 5 mil empresas nascentes e o programa Juro Zero para micro e pequenas, em que é possível fazer empréstimos e pagá-los em 100 meses e sem juros. “Nós apoiamos qualquer empresa instalada no Brasil mesmo que ela não seja de capital nacional. A única exigência é que a atividade de pesquisa seja feita no Brasil. A ideia é colocar dinheiro nas empresas e medir o retorno desse investimento na sociedade”, explica.

Com diferenças intrínsecas entre os membros do Bric, muitos especialistas consideram que agrupá-los em um mesmo bloco é algo artificial. O jornal Financial Times comparou-os a uma onça, um urso, um tigre e um panda, e que juntos eles têm poucos aspectos em comum. Para Pedro Vartanian, professor de economia da Trevisan Escola de Negócios, os países do Bric têm pouco poder político para atuar em bloco. “Até hoje os países não conseguiram assinar nenhum acordo importante. Há o interesse do governo brasileiro de substituir o dólar pelas moedas locais nas transações comerciais entre os países do Bric, mas considero isso difícil porque a maior parte dos países tem altos valores de reservas em dólares”, afirma.

Na própria área de tecnologia da informação ele considera ser difícil selar acordos de cooperação. Já que muitas empresas não querem abrir seu know-how para outras empresas, ele acredita que há uma falta de aproveitamento de parcerias técnicas em função do medo de expor o conhecimento e que, quando os governos fazem parcerias, é muito mais no sentido de troca de bens.

Vartanian considera que o Brasil pode se tornar a grande referência entre o bloco. “O País é das quatro economias a que está mais consolidada quando se avalia a segurança jurídica, de processos democráticos. Outra vantagem é que a economia não depende tanto do mercado externo.” Ele considera que para a Índia crescer mais precisa resolver grandes disputas territoriais com vizinhos e a contínua tensão entre os grupos étnicos; a China precisa melhorar o sistema financeiro e ampliar as liberdades individuais; e a Rússia precisa reduzir a dependência da economia de gás e de petróleo. Só é preciso que a onça faça o seu dever de casa.



 
    Opinião:
 

“ As oportunidades nos próximos anos são inúmeras e por diversas razões o Brasil tem todas as condições de se tornar um competidor estratégico.”

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